O dia que não começou

Sempre que acordo com cinco quilos de remela me impedindo de abrir os olhos e percebo que preciso exercer uma função na sociedade, costumo a nutrir os melhores tipos de barganhas imaginárias e apelos sentimentais ao Universo.

Por exemplo, a primeira coisa que faço ao acordar nunca é abrir os olhos. Isso vem depois. A primeira coisa é xingar mentalmente meu gato. O maldito felino. Ele me olha como que zombando de mim, sabe? O puto dá aquele sorriso animalesco, manja, com os caninos finos e miúdos de fora e eu sei, eu sei, que ele está ironizando minha vida. Porque ele vai ficar lá, belo e folgado, na minha oh-tão-confortável cama… e só vai levantar pra comer. Ele tem 24 horas por dia pra fazer absolutamente o que quiser, e vai usar umas 18 delas pra dormir. Maldito felino.

Mas aí percebo que ter inveja do gato não altera a minha situação. A segunda coisa que faço ao acordar ainda não é abrir os olhos: é imaginar o que precisa acontecer no mundo para que eu não precise me dar o trabalho de levantar.

Hoje mesmo eu estava pensando, ainda deitada na minha cama limpa e quentinha, que algum líder da CUT ou de sei lá que porras prometeu um colapso social caso o Temer continuasse a teimar com a reforma trabalhista dele.

Bom (surpreeesaaaa), o Temer não tá nem aí pra greve que teve. 

Então, às 8h da manhã de uma terça-feira pós-feriado, me peguei pensando: cadê meu colapso social? Quero algo grande, que me impeça de sair de casa. Se não for pra ser assim então nem faz. Quero fogo, execuções de políticos em praça pública, barbárie. Até cheguei a dar um sorrisinho só de pensar. É esse tipo de pessoa que eu sou quando tenho sono o suficiente pra não querer sair de onde estou.

Um monstro, eu sei.

Mas é tentador. Você sabe disso!

Eu sei o que eu faria. Voltaria a dormir por mais umas horas e acordaria bem a tempo de ver o César Tralli horrorizado dizendo que as pessoas estão literalmente cagando nos vagões de metrô, algo assim.

Almoçaria assistindo o SPTV, que seria frequentemente interrompido pelo Plantão da Globo. 

Tantantan tan tan tantan tan tan! Tan tan tan tan tatantantantan tan taaaaaaaaaan! ♪

Já até imagino as notícias. 

“Temer acaba de fugir pras Bahamas, mas não se preocupem: ativistas brasileiros já estão aguardando que o avião dele chegue no aeroporto.

Prometeram mandar o coração dele numa caixa.”

Nisso a economia do país já começou a despencar, é evidente. Inclusive todo mundo tá saqueando o Carrefour, as carne Friboi e os leite de detergente e tudo. Com ou sem agente químico porque foda-se, ninguém se lembra dessa merda, mais. É o que tem, come aí.

As semanas passam e continua a loucura. Eu ainda estou reclusa em casa porque o bairro está de mãos dadas na frente da minha residência (“ai de quem furar a greve!”). Infelizmente as pessoas começam a passar fome. Até fizeram um USA for Brazil, mantiveram a voz do Michael Jackson, mas Cindy Lauper foi substituída por Mc Melody. Já se fala em tocar essa versão na próxima abertura do Oscar, Meryl Streep estará aos prantos ao receber a estatueta e dedicá-la a nós, sofrido povo brasileiro.

Já não temos mais presidente, um grupo de black-blocs anarquistas canibais são responsáveis por dar fim em todos. Estamos nós por nós agora.

A Esplanada dos Ministérios? Virou sarau, amigo. Anarquia. 

Como ninguém mais tem dinheiro pra comer, estou me alimentando do que ainda temos da ração do meu cachorro. Quando acabar, talvez eu me junte aos anarquistas canibais e coma o braço de algum deputado. Mas no geral eu não ligo. Posso acordar tarde. Não preciso levantar, o Brasil finalmente ruiu. Penso “bom, está demorando pra acontecer” mas “e daí?” pois afinal “poderei passar o dia jogando e dormindo”.

Aí lembro que se eu não levantar e for trabalhar, os games não se comprarão sozinhos. Porque a economia pode até ruir, a democracia pode chorar, mas ainda vendem jogo de PS4 na Santa Ifigênia (o contrabando é mais poderoso do que a democracia, meu caro). A fatura do cartão de crédito não se pagará sozinha (bancos também são mais poderosos do que a democracia). Só então eu abro os olhos. Só então vou trabalhar.

Essa história tem uma moral, na verdade. A moral é que, entre o momento em que acordamos e o momento em que percebemos que precisamos encarar o mundo pelo bem do nosso bolso, todos nós provavelmente desejamos mais é que tudo se foda. 

É só isso.

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