Sonho 01 – Dona Yara

Estávamos andando por um interminável deserto escaldante. Uma camada fina de suor estampava nossas testas, e a noção de tempo e espaço já havia se perdido há tempos. Que horas seriam? Eu acreditava que por volta das 17h, mas que diferença faria saber? Quando até mesmo o desespero já havia ido embora junto com as últimas forças, restava a sede e o aceitamento: iríamos morrer ali, e isso era só uma questão de tempo.

Eduardo andava ao meu lado, arfando. A cabeça baixa dava a impressão de que ele buscava a solução de nossa sobrevivência em seus próprios pés. Lá no fundo, eu esperava que alguém aparecesse com qualquer tipo de sugestão. Como mesmo viemos parar aqui? Eu e minha família, eu digo. Onde diabos estávamos com a cabeça e como chegamos a este lugar? Não parece o tipo de sugestão perfeita para passarmos as férias, se é que vocês me entendem. Se eu tivesse qualquer força, certamente a usaria para estrangular o gênio que nos trouxe até aqui – isto é, se não fosse eu mesma a ter dado a sugestão. Se estávamos nesse lugar, não me daria o direito de duvidar do que quer que fosse.

Eduardo se aproximou de mim, o suor na testa, costas arqueadas como se ele estivesse a ponto de cair. Chegou perto e cochichou em minha orelha:

– Eu não queria ter que apelar para isso, mas infelizmente não temos mais escolha, Adamarys. Preste bastante atenção, o que eu vou dizer pra você eu não poderei dizer a mais ninguém. São as regras, e se você disser, você perde. Aconteça o que acontecer, não sente. Você ouviu? Não sente.

Franzi a testa. Ele estava alucinando, que ótimo. Onde caralhos eu sentaria? Abri a boca para responder, mas ele falou antes.

– Dona Yara, estamos com sede, Dona Yara, nos chame para um chá. A gente te acompanha e você mata nossa sede, Dona Yara, estamos perdidos, venha nos encontrar.

E, como num passe de mágica, não estávamos mais no deserto. Olhei ao meu redor, e aparentemente só eu estava completamente desnorteada. Meus pais e irmãos não perceberam nada, e embora ainda estampassem o extremo cansaço, era como se eles estivessem naquele lugar o tempo todo. Estávamos agora em uma rua asfaltada, um lugar que caberia perfeitamente nas periferias das principais cidades brasileiras. Os portões das casas eram o mesmo tipo de alumínio comum e sujo, possivelmente abertos com um clique de botão de controle – que dificilmente funcionaria de primeira. Olhei para o Eduardo me perguntando de que Creepy Pasta ele conseguira aquilo. Novamente, antes que eu abrisse a boca, ele respondeu.

– Não faça perguntas, apenas me siga.

Bem, quem sou eu pra contrariar? As coisas já estavam loucas o suficiente.

Nos arrastamos por alguns metros. Crianças brincavam de bola na rua, o fim de tarde já era aparente. Eduardo parou em frente a uma casa simples, como outra qualquer. Não possuia garagem, a porta de alumínio vazada mostrava um lance de escadas sem acabamento. No momento em que ele tocou a porta, todas as crianças pararam de brincar e nos olharam sombriamente, sem nos dirigir a palavra. Rígidos como estátuas. Eduardo abriu a porta e, sem dizer uma palavra, subiu pela escada de cimento cru. Sem nem hesitar, fomos atrás, mudos.

Subimos o lance de escadas e nos deparamos com um batente de porta vazio. Tudo que nos separava da sala adiante era uma cortina contas e miçangas grossas. Eduardo passou pela porta, e nós o seguimos. Agora, nos víamos em uma sala simples e aconchegante, um ar fresco que dava ao lugar uma cara de casa de avó. Porém, só haviam 2 elementos em toda sala: uma cadeira estofada que parecia ser irresistivelmente confortável e uma senhora. Mais a frente, uma outra porta sem batente levava a uma nova sala, aparentemente muito grande. Cheguei a me perguntar como a casa parecia tão menor por fora. De dentro da sala seguinte escutava-se uma música relaxante, porém quase nada podia ser visto, a não ser o pedaço de um piano.

A senhora negra de cabelos brancos nos sorriu com uma ternura. Algo vagamente ameaçador aparente. Porém, aquela idosa parecia extremamente cansada e debilitada. As costas eram curvadas em um ângulo desconfortável. Enquanto ela falava, era como se meu cansaço tivesse triplicado. Eduardo segurou meu braço, e a senhora se pronunciou:

– Boa tarde, meus queridos. Darei descanso e água a vocês, mas como vocês podem ver, minha casa é muito simples, e eu mesma acabo de chegar de horas caminhando. Pedirei que aguardem lá fora e que sejam educados. – ela enfatizou num tom mórbido – Chamarei um por vez para que vocês descansem e saiam. Primeiro, a criança.

Ela se referia ao meu irmão Pedro.

Saímos da sala, enquanto meu irmão ficou. Ele pareceu ter perdido qualquer força, ficou pálido e trêmulo. Os lábios rachados, os olhos fundos. Pela cortina, vimos a senhora caminhar lenta e dolorosamente até meu irmão.

– Meu querido, temos uma cadeira. Você vai sentar?

Meu irmão, cansado e sem nem pensar, afirmou com um aceno. Se atirou na cadeira confortável, e no instante seguinte estava corado, descansado e não mais letárgico. A senhora, enfurecida, disse:

– Criança mal educada, criança interesseira. Não me deu a chance de sentar, não respeita os mais velhos? Você veio a minha casa apenas para descansar e ir embora: sequer iria me fazer companhia. Agora, você estará sempre disposto e descansado, mas tocará violão para mim, e me fará companhia até quando eu achar necessário… e que leve a eternidade se preciso for.

Meu irmão sumiu da cadeira. Um novo instrumento começou a soar da sala seguinte a que se encontrava a idosa. Uma melodia de violão.

Arregalei os olhos e Eduardo se voltou para mim:

– Shhh. Cala a boca. Daremos um jeito depois.

Meus pais e meu outro irmão, um a um, sentiram a necessidade desesperadora de descanso, e se atiraram na cadeira um de cada vez, sendo repreendidos pela idosa. Eu já estava em pânico, e era minha vez.

– Minha querida, temos uma cadeira. O que fará?

Senti meu corpo afundar. Parecia que se eu aguardasse mais um segundo que fosse, eu morreria naquele instante. Era um cansaço mortal, indigno. Comecei a perder o foco. “Não sente”. Meu Deus, tudo o que eu queria era sentar. Arrumei forças para responder.

– Não, Dona Yara, senta a senhora que eu estou bem.

Ela sorriu e se sentou. Alguns minutos se passaram, minutos que pareciam a eternidade. Comecei a me senti melhor, mas não descansada.

– Está bem então, minha querida, saia que lá fora meus netos te darão água. Saia e não olhe para trás.

Obedeci e corri para fora. Ao sair, já havia caído a noite. Passei pela porta de alumínio e fui recepcionada pelas crianças. Uma, com um copo d’água na mão. Sentei na calçada e aguardei até que Eduardo saísse.

– Aonde estamos?

– Não faço a menor ideia. A gente descobre. A gente dá um jeito depois.

Acordei.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s