Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças 

Fiz como manda o figurino. Separei todas as coisas. Até mesmo os livros, as pelúcias que eu mais gostava e que já considerava parte do cenário do quarto que agora (pela primeira vez em muito tempo) era só meu. Nem fazia mais a ligação entre determinados objetos e a pessoa que os deu a mim, mas só de lembrar que algo meu passou por aquelas mãos, me dava mal estar. Uma espécie inexplicável de desgosto e nojo… era como se um dementador estivesse ali, era como se ele pudesse de alguma forma tirar mais de mim. Fiz como manda o figurino: separei tudo em 2 caixas. 

Para a primeira caixa escrevi uma carta desleixada em nanquim – e não a reli uma vez sequer. Pela primeira vez não tive medo de estar sendo injusta: fui é muito doce, comparado ao que recebi. Enrolei a carta e a prendi. Coloquei em uma caixa simples e bonita, na esperança de estrangular a complexidade e feiura da situação. Junto da carta coloquei alguns chaveiros, um doce (vencido) que ele amava e que nunca tive tempo de dar, e mais algumas pequenas coisas como fotos, lembranças.

Para a segunda caixa, alguns livros, enfeites maiores e roupas que ele não fizera questão de levar ao partir. Não havia sentido em devolver esse tipo de coisa: ele nunca lera um só livro que dei, de toda forma. E as roupas, ele teria pedido se quisesse… afinal, ele só deixava para trás o que não queria mais usar. Preferi doar. 

Deixei a caixa 2 em um abrigo de minha pequena cidade. Na certa as crianças vão aproveitar aquela edição de Calvin e Haroldo que ele me deu há anos e anos. E fui até o correio para Odisseia Final. Aguardei para ser atendida e finalmente fui chamada.

– Qual o valor do pacote?

Parei e pensei. Muita dor? Ao menos 1 litro de lágrimas? Mentiras? Qual é o valor?

– Não, não tem valor.

– Mas você precisa dar um valor.

Ah, eu preciso? Eu preciso mesmo dar valor? Que irônico… 

– Dez reais.

Então não precisa de seguro, né? Não, não precisa, moço… se extraviar, não fará diferença pra ele, nem mais pra mim. Saí dos correios sem saber se devia sentir alívio ou dor. E nessa mesma hora, começou a chover, no céu e em mim. Deve significar alguma coisa…

… eu nunca tive seguro, mesmo com o tanto de valor que eu na verdade tenho.

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