Algumas vezes,

ou quase sempre, eu sinto sombras tentando tomar meu lugar.

O que elas querem? Elas querem as minhas cores, a minha coroa, o meu jeito de falar. Elas querem a minha essência, os meus amores e meus anos de experiência, e tudo mais que puderem levar.

As sombras precisam da minha aceitação, dos meus trejeitos, das ondas dos meus cabelos. Elas precisam de toda forma até das coisas que menos importam sobre mim.  Elas querem parar de ser cópias de sombra e querem possuir a minha luz.

Mas quanto mais elas tentam, mais minha luz brilha.
E menores elas ficam.

Anúncios

Mayday 

Não é nada pessoal, e não é nada com ninguém, e talvez eu só esteja sendo chata.

Porque eu sou mesmo chata.

Nem sei como vocês me aguentam.

Sei que é 200% fácil achar que eu sou maneira, cool kid, gamer grrrrl, hell yeah. A real é que estou absolutamente cansada. 

Nossa, estou muito cansada.

Nos últimos tempos estou sempre edgy, até quando não estou sinto que estou. Lamentavelmente, voltei pra fase em que preciso de alguma afirmação em obras fictícias e tal, porque sinto que sou um incômodo e dispensável e que qualquer um pode gastar o tempo com alguém bem melhor do que comigo. Eu reclamo e sinto que estou incomodando, atrapalhando, e não adianta dizer que não estou: eu vou sentir que estou do mesmo jeito.

É como se a minha vida girasse em torno de coisas que não existem, porque não consigo mais lidar com as que existem. É como se (absurdos) eu não tivesse nada real. Sei lá, nada que de fato… valha a pena. Estou num constante estado interno de inutilidade.
Não consigo lidar com as pessoas. Eu queria ser uma amiga melhor e essas coisas, mas não consigo ser melhor nem pra mim mesma. Eu sou uma pessoa lamentável.

Eu sou uma farsa.

Eu sei que muita gente quer acreditar que não sou, mas é assim que eu me sinto. Um NPC, uma farsa. Um manequim numa vitrine vendo o resto acontecer, porque eu mesma não consigo fazer acontecer nada.

Eu não tenho nada que o dinheiro não compre, tenho?

Ou tenho, mas não sinto que tenho. Só sinto que tenho o que o dinheiro compra. O resto fica nublado, e eu honestamente não sinto que qualquer coisa positiva direcionada a mim seja… justa. Woah, eu sempre digo isso, mas estou enganando vocês.

Eu sou a rainha do fucked up! Eu só assisto. Não sinto que pertenço a nenhum outro lugar que não seja comigo mesma. Não consigo pensar direito. Não consigo saber o que fazer daqui. Minha cabeça não tá boa, as coisas não saem como planejei (simplesmente não saem at all) e eu estou cansada.

Fico esperando a fase da farsa acabar. Ou por bem ou por mal. Eu tento de verdade ser otimista com os outros, mas me sinto tão perdida que não consigo mais ser otimista pra mim mesma.  

Yep… foi mal.
 

Tipo 1
– Bom dia!

– Bom dia.

– Nossa. Seca. Arrogante. Infeliz. Mal-amada. 

– Mas e-

– Quê?! Você acha que não é?? Nossa. É mais arrogante do que eu achava que era. Você é uma piada, eu tenho pena de você.

– Não, eu não disse nada disso.

– TÁ ME CHAMANDO DE BURRO AGORA? É isso? De burro ou de mentiroso né. Não dá pra confiar em você. Devia ter ouvido o Flavinho, você não presta. 

– … o Flavinho que espancou meu cachorro?

– Ah, claro. Espancou seu cachorro, e daí? Vai se fazer de coitada né? Claro que vai. Vitimista. Ele tem mais credibilidade que você, ridícula. Pelo menos espancou o cachorro mas não é arrogante. Acha que o mundo liga pra você, garota? Tudo aquilo que você fica dizendo no Twitter, cê acha que alguém lê aquilo? Aquilo lá mesmo sobre você gostar de comer macarrão, nossa, quem vê pensa que gosta.

– … mas eu gosto de macarrão. Por que você lê meu Twitter?

– AH, agora eu que sou o errado? Gosta porra nenhuma. Mentirosa. Eu sei do que você gosta. E prove que eu leio.

– Tá bom, então. 

– Vai me ignorar? Hahahaha claro. Típico. Saiba que eu nem ligo pra você. Sou 200% completo. Feliz. Tenho dó de você.

– Ok.

– Seu cabelo ficou horrível nesse corte novo.
Tipo 2
– Você é linda!

– Obrigada ❤

– Não, sério, super linda, super especial, profunda, diferente!

– Woah. Muito obrigada, fico feliz de saber que acha isso.

– Acho, acho. Quero ficar com você! Me apaixonei! Fica comigo?

– … não cara, não tô numa boa fase, desculpa. ):

– Nossa, esse monte de cara se arrastando por você te deixou bem babaquinha né? Cê nem é tudo isso. Tava te fazendo um favor. Escrota.
Tipo 3
– Eu amo você.

– Olha, eu não te amo, mas gosto de você. Você é legal. Só não correspondo o sentimento.

– Claro que não corresponde. Sou um monstro. Tenho depressão, minha vida é horrível. Todo mundo me odeia meu gato tem aids. Meu vizinho furava as bolas de futebol que caiam no quintal dele. Tudo bem me odiar, eu também me odeio, sério. Às vezes pensei que você poderia me ajudar. Acho que pode. Você parece diferente, você pode me salvar. Pode me ajudar. Deus sabe se aguento mais essa vida.

– Você não me ama, você ama a ideia de ter uma muleta pra te ajudar a andar, e eu não sou essa muleta. Eu sou uma pessoa.

– Tudo bem… quanto tempo será que aguento… 

Tipo 4
– Acho você tão legal. Você fala abertamente das coisas né. Até de sexo você fala.

– É, por que seria errado?

– Mas do que você gosta então?

– Hum?

– Assim, quando você está sozinha no seu quarto e você começa a

– Cara. Não quero falar disso contigo.

– Mas você não fala de sexo?

– Falo sobre o assunto sexo, não sobre a minha vida sexual dessa forma. 

– Vai fala pra mim o que você gosta. Você gosta daquilo que postou no tumblr?

– …
Raro tipo Shiny que forma minha rede modesta de melhores amigos e/ou pessoas com quem eu conseguiria me relacionar.
* depois de 4 meses sem ouvir falar na pessoa *
– Oi, Ada!

– Oiê. Foi mal a demora pra responder ):

– Nah relaxa! Como vai a vida? Há quanto tempo!

– Vai bem, bem! E a sua?

– Ah, tranquilão. Vamos tomar um café qualquer hora!

– Porra, vamos sim. Cola na Liberdade amanhã, a gente almoça.

– Beleza. Viu a política? Loucura.

– Pois é, rapaz, enfia na pauta.

– Sim, e Pokémon hein? Lança novo?

– Opa, certeza. Tá chegando!

– Cara, o que achou do It novo?

– Parece promissor. Pretende ver?

– Sim!

-Vamos!

– Vamos! Vou sair e amanhã a gente troca ideia melhor 😀

– Suave! Até amanhã!

O dia que não começou

Sempre que acordo com cinco quilos de remela me impedindo de abrir os olhos e percebo que preciso exercer uma função na sociedade, costumo a nutrir os melhores tipos de barganhas imaginárias e apelos sentimentais ao Universo.

Por exemplo, a primeira coisa que faço ao acordar nunca é abrir os olhos. Isso vem depois. A primeira coisa é xingar mentalmente meu gato. O maldito felino. Ele me olha como que zombando de mim, sabe? O puto dá aquele sorriso animalesco, manja, com os caninos finos e miúdos de fora e eu sei, eu sei, que ele está ironizando minha vida. Porque ele vai ficar lá, belo e folgado, na minha oh-tão-confortável cama… e só vai levantar pra comer. Ele tem 24 horas por dia pra fazer absolutamente o que quiser, e vai usar umas 18 delas pra dormir. Maldito felino.

Mas aí percebo que ter inveja do gato não altera a minha situação. A segunda coisa que faço ao acordar ainda não é abrir os olhos: é imaginar o que precisa acontecer no mundo para que eu não precise me dar o trabalho de levantar.

Hoje mesmo eu estava pensando, ainda deitada na minha cama limpa e quentinha, que algum líder da CUT ou de sei lá que porras prometeu um colapso social caso o Temer continuasse a teimar com a reforma trabalhista dele.

Bom (surpreeesaaaa), o Temer não tá nem aí pra greve que teve. 

Então, às 8h da manhã de uma terça-feira pós-feriado, me peguei pensando: cadê meu colapso social? Quero algo grande, que me impeça de sair de casa. Se não for pra ser assim então nem faz. Quero fogo, execuções de políticos em praça pública, barbárie. Até cheguei a dar um sorrisinho só de pensar. É esse tipo de pessoa que eu sou quando tenho sono o suficiente pra não querer sair de onde estou.

Um monstro, eu sei.

Mas é tentador. Você sabe disso!

Eu sei o que eu faria. Voltaria a dormir por mais umas horas e acordaria bem a tempo de ver o César Tralli horrorizado dizendo que as pessoas estão literalmente cagando nos vagões de metrô, algo assim.

Almoçaria assistindo o SPTV, que seria frequentemente interrompido pelo Plantão da Globo. 

Tantantan tan tan tantan tan tan! Tan tan tan tan tatantantantan tan taaaaaaaaaan! ♪

Já até imagino as notícias. 

“Temer acaba de fugir pras Bahamas, mas não se preocupem: ativistas brasileiros já estão aguardando que o avião dele chegue no aeroporto.

Prometeram mandar o coração dele numa caixa.”

Nisso a economia do país já começou a despencar, é evidente. Inclusive todo mundo tá saqueando o Carrefour, as carne Friboi e os leite de detergente e tudo. Com ou sem agente químico porque foda-se, ninguém se lembra dessa merda, mais. É o que tem, come aí.

As semanas passam e continua a loucura. Eu ainda estou reclusa em casa porque o bairro está de mãos dadas na frente da minha residência (“ai de quem furar a greve!”). Infelizmente as pessoas começam a passar fome. Até fizeram um USA for Brazil, mantiveram a voz do Michael Jackson, mas Cindy Lauper foi substituída por Mc Melody. Já se fala em tocar essa versão na próxima abertura do Oscar, Meryl Streep estará aos prantos ao receber a estatueta e dedicá-la a nós, sofrido povo brasileiro.

Já não temos mais presidente, um grupo de black-blocs anarquistas canibais são responsáveis por dar fim em todos. Estamos nós por nós agora.

A Esplanada dos Ministérios? Virou sarau, amigo. Anarquia. 

Como ninguém mais tem dinheiro pra comer, estou me alimentando do que ainda temos da ração do meu cachorro. Quando acabar, talvez eu me junte aos anarquistas canibais e coma o braço de algum deputado. Mas no geral eu não ligo. Posso acordar tarde. Não preciso levantar, o Brasil finalmente ruiu. Penso “bom, está demorando pra acontecer” mas “e daí?” pois afinal “poderei passar o dia jogando e dormindo”.

Aí lembro que se eu não levantar e for trabalhar, os games não se comprarão sozinhos. Porque a economia pode até ruir, a democracia pode chorar, mas ainda vendem jogo de PS4 na Santa Ifigênia (o contrabando é mais poderoso do que a democracia, meu caro). A fatura do cartão de crédito não se pagará sozinha (bancos também são mais poderosos do que a democracia). Só então eu abro os olhos. Só então vou trabalhar.

Essa história tem uma moral, na verdade. A moral é que, entre o momento em que acordamos e o momento em que percebemos que precisamos encarar o mundo pelo bem do nosso bolso, todos nós provavelmente desejamos mais é que tudo se foda. 

É só isso.

Identidade

Quando me olho no espelho, eu não sou eu. Eu não estou lá. Aquilo é somente eu pelos meus olhos, La Trahison des Images.

Ceci n’est pas Ada.

A minha sombra não sou eu.

Mas de tudo que não sou eu, o que menos sou eu é quem você acha que sou. Sua projeção é ainda mais distante do eu que eu sou, uma miragem que você tem de algo que você nem sabe se está lá. E que você não vai descobrir: vai morrer de sede antes.

Você não sabe o que tem nas minhas abas anônimas, embaixo da minha cama, dentro da minha cabeça. Você não sabe o que tem no meu coração, nas minhas costas, na minha história. Você não sabe a ração que dou ao meu cachorro, o shampoo que uso, a cor da minha escova de dente. 

Você não sabe o que me faz rir quando estou sozinha, e não sabe o que me faz chorar.

Você não sabe nada além do que eu desejo mostrar. Qualquer outra coisa você supõe, imagina. Acha que é muito, mas é nada. E quanto mais nada para mim você for, mais nada de mim você tem.

Oras, mas eu não sou eu especial, e isso vale pra todo mundo. 

Eu não sei o que você tem embaixo da cama, ou dentro da cabeça, ou no coração. 

E você sabe que não sei, mas também não quero saber. Se eu quisesse, perguntaria.

Então sempre que você for achar que me conhece, repense. Seja humilde. Você não me conhece. Você não conhece a ninguém.

E você não pode ser ninguém além de você, seja grato por isso. Eu sou. Porque eu, chore o quanto quiser, sou a única pessoa que pode ser eu. Nem meu próprio reflexo é.

“I’m sure I’m not Ada” she said, “for her hair goes in such long ringlets, and mine doesn’t go in ringlets at all;” – Alice in Wonderland, Chapter One, p. 13.

Melting 

Ok, mas o comum sobre mim é que eu me sinta ameaçada. Não é tão incomum que eu sinta um aperto no coração e eu sei, eu sei, que em algum lugar tem alguém me desejando algo ruim.
Parece estupidez, e provavelmente seja, mas é assim que eu me sinto. Deve ser algo relacionado ao TAG or something, mas por mais que pareça loucura esse ~ sexto sentido ~ já foi bem certeiro em adivinhar quando alguém ia querer me enfiar em problemas… geralmente alguém de fato aparecia pra atormentar meu juízo, eu juro.

Mas aí hoje eu senti aquela sensação que não sinto há anos – anos! -, vocês acreditam? Senti meu coração derreter, como se alguém estivesse chegando pra me abraçar, como se alguém quisesse enfrentar esse boooooomm de problemas que eu sou. Aquela segurança boa de estar perto de alguém que acha que eu valho a pena, que valho a briga.

Bom, também pode ser estupidez. Sentir isso assim do nada, por nenhum motivo aparente e de forma completamente abstrata. Mas foi como se, em algum lugar, alguém gostasse muito de mim. Cérebros gostam de ficar resgatando sentimentos aleatórios, então sei lá… enfim, nem é muito isso que importa, nem é se existe alguém. O que importa é: eu já senti isso, não senti? Mas eu ainda consigo sentir. Entende? Eu consigo! Eu posso fazer essa coisa de me sentir protegida, ainda me lembro como é aparentemente. Talvez, se eu conseguir dar unlock nesse sentimento, eu não morra uma pessoinha amarga com 23 gatos. Talvez seja tipo “se eu controlar o ki e eu consigo me sentir bem” kind of thing.

Haha, super saiyajin Deus Ada: consegue o impossível poder de lidar com a própria ansiedade e sente segurança o suficiente pra afirmar que pode um dia não ser tão traumatizada quanto é hoje.

Promissor, hun?

Sem vontade.

Não, eu nem sei se é coisa de fase. Essa crise dos “20/25 anos”, a pessoa que acaba de sair da adolescência e percebe que a maior parte da vida não sai (mas nem um tiquinho mesmo) como planejamos. Não, não sei se é fase. Não sei se é porque passei do momento “o que eu quero” e estou no momento “o que posso ter”, ou se é porque esses momentos são tão assustadoramente distantes.
Não sei se é pelo caminhão de decepções que acumulei com pessoas ou fatos. Não sei se de repente é porque perdi a confiança, a paciência, a vontade, o ânimo. Tenho uma longa lista de “não sei” aqui, tudo girando em torno daquela verdade que já venho percebendo há vários meses, e que só se faz mais incômoda com o passar do tempo: eu não me encanto.

E veja, não é que não há nada que me faça feliz, no geral eu sou uma pessoa feliz. Obrigada por perguntar. Com esforço e jogo de cintura não há nada que me falte. Mas definitivamente eu não me encanto. Não há mais aquela euforia de novidade, ou de amor, ou de vontade de fazer besteira. De encher a cara e me arrepender no dia seguinte, de ter histórias idiotas pra contar. Claro, eventualmente coisas assim acontecem, mas tem se tornado cada vez mais raro e tido cada vez menos graça. Não é nada pessoal. Não é mesmo nada pessoal, mas no meu tempo livre eu gosto de ficar em casa, mesmo. Lendo ou desenhando ou vendo filme. Claro, saio vez ou outra, but then again, cada vez menos… e cada vez menos vontade eu tenho.

Talvez eu não me sinta desafiada. Isso faz sentido? Talvez eu sei lá, talvez eu tenha desacostumado, me acomodado, ficado chata. E sabe o pior? Eu tenho vontade de ter vontade de fazer coisas que não tenho a menor vontade de fazer, e que me fazem falta. Tenho vontade do desafio, do encanto, daquilo que não é alegria, É MAIS, é outra coisa. Eu tenho também várias perguntas, todas girando em torno da mais assustadora:

E se não for uma fase?